Ao despertar nesta manhã, após a passagem de uma noite alegre e festiva, acordei num estado de graça, na busca da compreensão das insatisfações humanas, a partir da incoerência dos próprios sentimentos que regem a vida, e visualizei um encontro, uma conversa bastante sugestiva entre a Paixão, o Amor e a Amizade.
A PAIXÃO não estava no seu melhor momento, mostrava-se ressentida com a sua repercussão diante do mundo, pois segundo ela, muitos a tratavam com pouco caso, não lhe davam o devido valor, vendo-a como uma ilusão transitória, efêmera, de duração limitada, e ainda lhe atribuem a fama de devastadora, de causar efeitos negativos por onde passa, destroçando a vida, a lógica e a razão de suas vítimas. Diante disso, o seu desejo era ser o amor, pois segundo ela, o mesmo é visto como firme, seguro, digno de confiança e responsável pelo equilíbrio entre os povos, incentiva a paz, a justiça e a fraternidade.
O AMOR, por sua vez, não se sentia tão satisfeito e adornado de tantas qualidades assim, pois, segundo ele, muitas vezes era confundido, incompreendido, mal entendido, provocando equívocos e erros irreparáveis na vida das nações e das pessoas. Dizia que nas relações interpessoais, era muito rejeitado, desprezado, repelido, ante a sua capacidade de tornar-se mais profundo, embrenhar-se, compreender, unir, ligar afetivamente, aconchegar e criar laços sólidos em um mundo tão instável. Reclamava ainda, que muitas vezes era confundido exteriormente com toda sorte de sentimentos, como pena, amizade, comodidade, conveniência, servindo de fachada em diferentes aspectos. E lembrava que em seu nome são cometidas muitas injustiças, armadilhas, enganos, manobras ardilosas para iludir, simulação, usura e lucro fácil. Por fim, profetizava que apesar da sua notoriedade, da sua boa reputação, enfrentava ao longo dos tempos uma grande dificuldade, que era a celebração de um encontro, uma aliança, entre ele e a JUSTIÇA, pois esta, na sua elevada vaidade de Deusa, raríssimas vezes lhe destinou um pouco de atenção. Dizia o amor, finalmente, que desejava ser a amizade, pois esta é uma vinculação sadia, de fraternidade, bondade, destinado aos homens e aos animais e não exige um compromisso mais intenso.
A AMIZADE, por outro lado, no seu modo de ver, também não se sentia em uma posição tão privilegiada assim, e o seu ofício não era tão simples quanto pensava o amor. Na avaliação da amizade, ela sofre de uma bipolaridade muito grande. Ora se manifesta de forma bem definida, clara, como sentimento fiel de afeição, ternura, camaradagem entre pessoas, e animais em um convívio social. Ora pode se apresentar muito além dessa vinculação de caráter social, abrigando outros sentimentos que não podem ser manifestados através da PAIXÃO e do AMOR, aumentando, assim, a sua responsabilidade como base dos sentimentos de fraternidade e benevolência. Muitas paixões, muitos amores, que tolhidos pelas impossibilidades tiveram que se acolher no campo da amizade, resguardando-se do rigor da reprovação, da critica e da divulgação e até mesmo da rejeição. Daí a amizade se considerar muito complexa e por vezes difícil de ser entendida e avaliada. Na verdade a amizade queria ser vista como a base de todos os sentimentos, o alicerce para a construção do amor, da paixão, do respeito, da consideração e da admiração, pois só assim, ela estaria sendo vista, como o sentimento fiel de afeição, simpatia, estima ou ternura entre as pessoas.
Como nessa parábola alegórica e imaginária dos sentimentos, assistimos no cotidiano a insatisfação existente entre os seres humanos, enquanto protagonistas desses mesmos sentimentos e outros conflitos interiores, envolvendo a família, religião, matrimônio, profissão, emoções, e a própria sexualidade.
Muitas pessoas do sexo masculino, batizadas e registradas como Antônio ou João, gostariam mesmo de pertencerem ao universo feminino, e serem chamadas de Kátia, Paloma, Priscila, e vice-versa, havendo um manifesto descompasso entre o ser e o sentir, daí a afinidade, o comportamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo. Ainda na linha tênue, sutil, entre o heterossexual e o homossexual, existe o individuo que não tem uma posição bem definida, ou numa outra leitura, aquele que fez a opção pelos dois modos de se relacionar sexualmente, mas nunca assumindo essa condição de verdade, pois ora deseja ser Maria, ora deseja ser João, gerando conflitos nocivos a uma existência emocionalmente sadia.
Seguindo nessa visão, observa-se diuturnamente que essa insatisfação acompanha todos os espaços do homem, pois quem está solteiro quer encontrar um companheiro, e/ou companheira, quer formar uma família, construir um lar. Quem está casado, não raras vezes pensa em se separar, construir uma nova vida, buscar novos horizontes, encontrar um novo caminho. Quem reside no sul deseja vir para o norte, viver no litoral, curtir as praias, o sol, o mar. Quem está no norte almeja ir para o sul, conhecer o progresso, andar de metrô, e sentir o frio. Já no campo da religião, existe uma vulnerabilidade muito grande, os católicos estão migrando para outras religiões, em busca de uma fé de resultados, de promessa de prosperidade, riqueza, cura, tudo, menos a salvação. Mas existe também esse movimento entre as outras religiões.
Na vida profissional nem sempre se faz a escolha certa, existe o médico medíocre que queria ser advogado ou engenheiro, e existe o engenheiro que nunca fez uma obra, pois queria ser pediatra. Nos relacionamentos, às vezes sonhamos encontrar a pessoa certa, que nos ame, admire, valorize, incentive, seja positiva em nossa vida, e quando isso acontece simplesmente descartamos, desprezamos, lhe tratamos com indiferença e desprezo. Por outro lado, às vezes dispensamos todo o nosso amor, carinho e atenção a quem não merece, nos machuca, humilha, nos trata com desdém, enfim, damos pérolas aos porcos, e assim caminha a humanidade em meio às suas contradições. Tal qual a insatisfação dos sentimentos, cada um tem as suas insatisfações, seus embates, sempre achando que a posição do outro é mais cômoda e confortável.
Portanto, em meio a tudo isso devemos ter mais consciência quanto às nossas escolhas, sejam elas profissionais, sentimentais, religiosas ou sexuais, pois fazemos parte de um contexto político e social, e todos os nossos atos mal elaborados, ou mal resolvidos, refletem em nossa vida e na vida das pessoas que estão à nossa volta, pois como disse Abraham Lincoln “podemos enganar alguns por todo tempo, todos por algum tempo, mas não podemos enganar a todos por todo tempo”.
Rita de Cássia Andrade