Euclides da Cunha
Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu na Fazenda saudade, em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de 1866, onde viveu até os três anos de idade, quando da morte prematura de sua mãe. Euclides teve uma infância triste juntamente com sua irmã, Adélia, passando a viver com seus tios maternos, em Teresópolis (RJ).
Na adolescência teve que Matricular-se na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, no curso de Estado - maior e Engenharia Militar da Escola Militar, para receber o soldo que a Escola pagava e por conta do alojamento e comida. Tinha, entre seus colegas, Cândido Rondon, Lauro Müller, Alberto Rangel e Tasso Fragoso.
Foi desligado do Exército sob o pretexto de incapacidade física, mas na verdade o seu desligamento se deu em razão dos seus protestos, pois atirou o sabre aos pés do Ministro Tomás Coelho, declarando-se republicano.
Proclamada a República em 1889, o ator de Peru Versus Bolívia, retorna à Escola Militar da Praia Vermelha, graças ao apoio de seu futuro sogro, o Major Sólon Ribeiro e de seus colegas da Escola, que pediram sua reintegração.
1890 - Casa-se com Ana Emília Ribeiro.
1891 - Tira um mês de licença para tratamento de saúde. Viaja com a esposa para a Fazenda Trindade, de seu pai, localizada em Nossa Senhora do Belém do Descalvado (atual Descalvado), no interior de São Paulo. Morre sua filha Eudóxia, recém-nascida.
1892 - Conclui o curso na Escola Superior de Guerra e é promovido a tenente, seu último posto na carreira. Cumpre estágio na Estrada de Ferro Central do Brasil — trecho paulista da ferrovia, entre a capital e a cidade de Caçapava, por designação do marechal Floriano Peixoto. É nomeado auxiliar de ensino teórico na Escola Militar do Rio. Nasce seu filho Solon Ribeiro da Cunha.
1893 - Escreve artigo com críticas ao governo do marechal Floriano, cuja publicação foi negada pelo jornal “O Estado de São Paulo”. Acometido de forte pneumonia, interrompe sua colaboração com o jornal. Volta a trabalhar como engenheiro praticante na Estrada de Ferro Central do Brasil. Com a Revolta da Armada, que teve início em 06/09, seu sogro é preso. Sua mulher, Ana, refugia-se, com o filho Solon, na fazenda do sogro, em Descalvado (SP). O escritor é designado para servir na Diretoria de Obras Militares.
1894 - É punido com transferência para a cidade de Campanha (MG), por ter protestado, em cartas á “Gazeta de Notícias”, do Rio, contra a execução sumária dos prisioneiros políticos, pedida pelo senador florianista João Cordeiro, do Ceará. Nasce seu filho Euclides Ribeiro da Cunha Filho, o Quidinho.
1895 – Obtém licença do Exército, por ser considerado incapaz para o serviço militar devido à tuberculose. Vai para a fazenda do pai e se dedica às atividades agrícolas. Cansado, poucos meses após tornar-se lavrador, vai trabalhar como engenheiro-ajudante na Superintendência de Obras Públicas em São Paulo.
1896 – Mesmo desaconselhado pelo sogro, o autor desliga-se do Exército, alegando incompatibilidade com a carreira militar, indo para a reforma como tenente. Formado em Engenharia, inicia suas atividades como Engenheiro.
1897 - passa a colaborar em vários jornais brasileiros, a exemplo do Estado de São Paulo, sendo este, que o enviou a Canudos como correspondente. Acompanha, de perto, toda a movimentação de tropas e faz pesquisas sobre Canudos e Antônio Conselheiro. Em Monte Santo, em companhia do jornalista Alfredo Silva, faz incursão nos arredores da cidade, observa as plantas e minerais da região. Nas cercanias de Canudos, no dia 19/09, escreve sua primeira reportagem da frente de batalha. Antonio Conselheiro morre em 22/09. O autor passeia pela cidade, anotando em sua caderneta de bolso, expressões populares e regionais, mudanças climáticas, desenhos da cidade e das serras da região e copia diários dos combatentes. Transcreve poemas populares e profecias apocalípticas, surgindo dessa viagem, uma das melhores obras de interpretação do Brasil. “Os Sertões”, que desde o seu lançamento, teve sucesso de público e crítica, recebendo comentários entusiasmados de Jose Veríssimo e Araripe Júnior. O presidente Prudente de Morais o nomeia adido do estado-maior do ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt. Torna-se sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
1898- reassume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Publica, em “O Estado”, “O Excerto de um livro inédito”, trechos de “Os sertões”, em que defende a tese de que o sertanejo é um homem forte, cuja energia contrasta com a debilidade dos “mestiços” do litoral. A ponte recém-inaugurada, construída em São José do Rio Pardo (SP), em parte sob a fiscalização do escritor, desaba, levando Euclides àquela cidade para acompanhar o desmonte. A demora nos trabalhos faz com que o escritor mude-se para aquela cidade, onde fica até 1901. Profere palestra no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, sobre a “Climatologia dos sertões da Bahia”, e propõe a construção de açudes para resolver o problema das secas no Nordeste. Grande parte de “Os sertões” é escrita em São José, com a colaboração do prefeito da cidade, Francisco Escobar, que se tornara amigo do escritor.
1990 - finaliza a primeira versão de “Os sertões.
1901 – É nomeado chefe do 5º Distrito de Obras Públicas, com sede em São Carlos do Pinhal (SP), onde conclui “Os sertões”. Nasce seu filho, Manuel Afonso Ribeiro da Cunha. Assina contrato com a editora Laemmert, do Rio, a publicação de 1.200 exemplares de “Os sertões”, assumindo o compromisso de pagar a metade dos custos de edição, 1conto e quinhentos mil réis, quase o dobro de seu salário de engenheiro.
1902 - após um trabalho insano de revisão, “Os sertões (Campanha dos Canudos)” chega às livrarias em dezembro, sendo recebido com aplausos e restrições pela critica.
1903 – A primeira edição do livro se esgota em pouco mais de dois meses. Começa a tomar notas para a “História da revolta”, livro sobre a rebelião da Marinha, que combateu no Rio, como oficial do Exército, de 1893 a 1894. Elege-se para a cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Castro Alves, e como sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Face à possibilidade de participar de expedição ao Purus, suspende a redação do livro. Vende os direitos das segunda tiragem de “Os sertões” para o editor Massow. Demite-se da Superintendência de Obras Públicas.
A repercussão do seu primeiro livro permitiu o ingresso de Euclides como sócio no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e na Academia Brasileira de Letras. Na ABL. Independente dessa obra, o autor de “A Margem da História”, teve papel decisivo na Diplomacia Brasileira, sendo nomeado pelo Barão do Rio Branco, chefe da Comissão Mista de Reconhecimento do Alto Purus delimitando a fronteira entre Brasil e o Peru.
Realizou viagem heróica pelo Rio Purus, na Amazônia, chefiando missão oficial do Ministério das Relações Exteriores. Percorreu cerca de 6.400 quilômetros de navegação, alguns trechos inclusive a pé. De volta, redige, com o comissário peruano, o relatório da expedição, embarcando em seguida para o Rio de janeiro. Enquanto estava na expedição pela Amazônia, a editora Laemmert publica a terceira edição de “Os sertões”.
1904 – Participa, através de artigos publicados em jornais, do debate sobre os conflitos de fronteira. Condena o envio de tropas brasileiras para o Alto Purus e defende uma solução diplomática que permita incorporar o território do Acre. Propõe uma “guerra dos cem anos” contra as secas do Nordeste, que inclua a exploração científica da região, a construção de açudes, poços e estradas de ferro e o desvio das águas do rio São Francisco para as regiões afetadas pela estiagem. Após trabalhar alguns meses na Comissão de Saneamento de Santos, desentende-se com a diretoria e pede demissão. Sem emprego, volta a escrever no jornal “O Estado de São Paulo” e, também, em “O País”, do Rio. Dificuldades financeiras fazem-no transferir, por uma bagatela, os direitos de “Os sertões” para a editora Laemmert. É nomeado, pelo barão do Rio Branco, chefe da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira do Brasil com o Peru. Parte rumo a Manaus (AM) no dia 13/12.
1905 - Realiza viagem heróica pelo Rio Purus, na Amazônia, chefiando missão oficial do Ministério das Relações Exteriores. Percorre cerca de 6.400 quilômetros de navegação, alguns trechos inclusive a pé. A comissão chega à foz do rio Purus em 09/04. De volta, redige, com o comissário peruano, o relatório da expedição. Embarca para o Rio no dia 18/12. Durante sua ausência, a editora Laemmert publica a terceira edição de “Os sertões”.
1906 – Com a saúde debilitada pela malária, ao chegar encontra Ana, sua esposa, grávida do cadete Dilermando de Assis. Mesmo diante da gravidade da situação familiar e emocional vivenciada, trabalha como adido do barão do Rio Branco. Se empenha no preparo da documentação necessária à construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré. A Imprensa Nacional publica “Notas complementares do comissário brasileiro” sobre a história e a geografia do Purus, incluído no “Relatório da comissão mista Brasileiro-Peruana de reconhecimento do Alto Purus”. Recusa indicação para fiscalizar a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Ana dá à luz Mauro, que falece de debilidade congênita uma semana após seu nascimento. Tempos depois, afirmará ter tomado remédios abortivos tentando interromper a gravidez e que fora também impedida pelo marido a amamentar a criança, filha de Dilermando. O “Jornal do Comércio” publica “Peru versus Bolívia”. Começa a escrever “Um paraíso perdido”, livro sobre a Amazônia, que não é terminado face à morte do autor. Os originais se perderam. Toma posse, finalmente, na Academia Brasileira de Letras.
1907 – Pública “Contrastes e confrontos”, pela editora Livraria Chardron, do Porto (Portugal). Nasce Luís Ribeiro da Cunha, registrado como seu filho, mas que irá adotar, na fase adulta, o sobrenome Assis, de seu pai biológico Dilermando. Profere, com grande sucesso, no Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo, a conferência “Castro Alves e seu tempo”.
1908 – Escreve o prefácio do livro “Poemas e canções”, de Vicente de Carvalho. Em “Antes dos versos”, expõe sua concepção da poesia moderna. Publica no “Jornal do Comércio”, a crônica “A última visita”, sobre a inesperada homenagem de um anônimo estudante a Machado de Assis em seu leito de morte. O biografado ocupa, por breve período, com o falecimento de Machado, a presidência da Academia Brasileira de Letras. Passa o cargo para Rui Barbosa. Inscreve-se no concurso para a cadeira de lógica no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II), no Rio.
1909 – Buscando uma estabilidade, inscreve-se no concurso para a cadeira de lógica no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II), no Rio, classificado em segundo lugar, sendo nomeado graças à interferência junto ao presidente da República, Nilo Peçanha, por parte do Barão do Rio Branco e do escritor e deputado Coelho Neto, seus grandes amigos e admiradores. Entrega aos editores, Lello & Irmão, as provas de “À margem da História”.
1909 – no dia 15 de agosto, por volta das 10 horas, foi alvejado na antiga estrada Real de santa Cruz, hoje Avenida Dom Helder Câmara, no bairro da Piedade no Rio de Janeiro, por Dilermando de Assis, cadete do Exército, que vinha mantendo um envolvimento amoroso com a mulher do autor de “contrastes e confrontos”.
O caso em si ficou conhecido como a “Tragédia da Piedade” deixando toda a sociedade brasileira perplexa, em virtude do amplo conceito que detinha Euclides da Cunha, nos meios políticos e sociais.
Levantando a tese de legítima defesa, Dilermando de Assis, foi absolvido, em julgamento que entrou para os Anais do Direito, como um dos mais importantes do século XX.
A morte de Euclides reflete em grande parte a sua vida, tumultuada, mais que deixou em todos um grande legado as gerações que o sucederam.
1916, o segundo-tenente Dilermando de Assis, que havia sido absolvido da morte de Euclides (legítima defesa), mata em um cartório de órfãos no centro do Rio, o aspirante naval Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, que tentou vingar a morte do pai. Dilermando é novamente absolvido, pelo mesmo veredicto.
A vida pessoal de Euclides da Cunha foi marcada por tragédias familiares, iniciando-se com a perda prematura dos seus pais e parentes mais próximos. Sua vida profissional também foi cheia de altos e baixos, de muitas dificuldades. No casamento também não foi diferente, encontrou na sua união com Ana, a grande armadilha da sua vida, diante do envolvimento de sua mulher, com o cadete Dilermando, sendo vítima da tragédia humana pessoal e familiar, pois além da desonra e da humilhação sofrida, tanto ele quanto o seu filho, Euclides da Cunha Filho, foram tragicamente assassinados a tiro pelo amante de sua mulher.
Euclides tinha a saúde fragilizada, mas um espírito forte, equilibrado, um visão futurista, e ainda hoje seus trabalhos exercem profunda influência na Literatura e em diversos setores de atuação do Estado. Foi o precursor do modernismo no Brasil, ao lado de escritores como Augusto dos Anjos (paraibano) e Lima Barreto, sendo a sua obra, discutida e estudada por diversos segmentos ao longo destes anos. Na época, já vislumbrava a transposição das águas do rio São Francisco, visando minimizar os efeitos da seca em certas regiões do Nordeste.
Como funcionário do Ministério das Relações Exteriores, Euclides refletia sobre o destino do Brasil no mundo em geral e na América do Sul em particular, considerando as suas relações de solidariedade e de rivalidade com os países vizinhos.
O escritor estava atento às questões do seu tempo e as observou e as analisou de acordo com as perspectivas que lhe eram oferecidas pela sua época. Os artigos que compuseram os livros “Contrastes e Confrontos” “Peru versus Bolívia, e “ À Margem da História, foram escritos por jornais, continham, no geral, reflexões sobre acontecimentos do tempo presente e analisavam temas amplamente debatidos pela imprensa da época.
Euclides se tornou famoso internacionalmente por sua obra-prima, “Os Sertões”, que retrata a Guerra dos Canudos. Definida como o confronto entre o Exército da República e um movimento popular de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro, que durou de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no interior do estado da Bahia, no Brasil. A guerra terminou com a destruição total de Canudos, a degola de muitos prisioneiros de guerra, e o incêndio de todas as 5.200 casas do arraial, e tudo isso foi retratado em suas obras.
Em seu centenário de morte, o escritor carioca Euclides da Cunha continua como referencia na Literatura, Sociologia, Geografia, História e Diplomacia. Foi escritor, professor, sociólogo, repórter jornalístico e Engenheiro, e embora tenha se tornado notável por sua obra-prima, “Os Sertões”, onde reflete a batalha de canudos, a história sertaneja, trata-se, contudo, de um escritor que não refletiu apenas esse aspecto social ou regional. Publicado em diversos idiomas como alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco. As demais obras de Euclides da Cunha revelam muitos aspectos do intelectual que despertou interesse na sociedade brasileira dos últimos 100 anos.