Arquivo da Categoria ‘Literatura’

Gullar, um poeta mundial

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Talvez o mais expressivo poeta brasileiro neste começo de milênio, Ferreira Gullar já produziu poemas que engrandecem a nossa literatura e mesmo que não queira, alça vôos ainda mais altos, apesar do silêncio dos 80 anos.

O concorrido Prêmio Camões, um dos mais prestigiados da literatura portuguesa, foi reservado para o poeta maranhense, neste ano de 2010, correspondente à 100 mil euros.

No ano de 2002, o acadêmico Antônio Carlos Secchin liderou um movimento pelo Prêmio Nobel de Literatura, mas não obteve o êxito desejado.

Uma vez Gullar, nosso conterrâneo, escreveu que “ a arte existe porque a vida, por si só, não basta”. Nele, a arte e a vida se imitam. É a poesia que sempre está em alguma parte da vida.

Traduzir-se

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

Pensamento do dia

domingo, 20 de junho de 2010

“Quando se é tolerante e compreensivo demais com os deslizes dos outros, se acaba perdendo o respeito e ficando mal consigo mesmo. A saída é seguir os desafios da vida, pois quem não consegue se libertar das algemas do coração e da alma, perde a força para amar e a essência da liberdade. Quem não consegue se libertar de prisões sentimentais de amigos ou de amores, traz em si uma grande dose de carência e plenitude de vida.” 

Rita de Cássia Andrade

Memorial de Maria Moura

quinta-feira, 3 de junho de 2010

 
Raquel de Queiroz

Uma das mais festejadas escritoras brasileiras, a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003), terá o romance “ Memorial de Maria Moura” lançado na França, numa publicação das Editions Metailie, que comemora os 40 anos da Editora. “O Quinze” e Memorial de Maria Moura são as obras mais conhecidas da primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras.

Os 100 anos de nascimento de Rachel de Queiroz, neste ano, serão comemorados com a publicação de duas coletâneas de crônicas e uma biografia destinada ao público infantil. Um orgulho para os brasileiros que, infelizmente, só são destacados lá fora pelo rebolado das mulatas e o fanatismo do futebol.

Rita de Cássia Andrade

Lya Luft

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Lya Luft 

A renomada escritora gaúcha Lya Luft, publicou no decurso de 30 anos de sua bem sucedida trajetória, duas dezenas de títulos. Mas não para por aí. No dia 13 de maio, na capital paulista, ela lançou mais uma obra de arte: “Múltipla escolha”.

O livro analisa situações do cotidiano, apresentando dicas para o leitor refletir intensamente sobre as escolhas que toma ao longo da vida e, principalmente sobre os enganos. A escritora Lya sempre teve a capacidade de transpor para o papel, com tintas de seu talento, as mais variadas experiências vividas nas relações humanas.

Ao navegar pela Internet, nas madrugadas prazerosas de reflexão e trabalho, deparei-me com texto de sua autoria que ora transcrevo:

(…) Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco porque não existe plástica que resgate seu brilho. Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar. Olhe-se no espelho…

É como costumo dizer: O que esculpe a nossa alma são as ações que praticamos. Somos aquilo que pensamos e fazemos.

Rita de Cássia Andrade

Um Século sem o homem dos Sertões

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

EuclidesEuclides da Cunha

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu na Fazenda saudade, em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de 1866, onde viveu até os três anos de idade, quando da morte prematura de sua mãe. Euclides teve uma infância triste juntamente com sua irmã, Adélia, passando a viver com seus tios maternos, em Teresópolis (RJ).

Na adolescência teve que Matricular-se na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, no curso de Estado - maior e Engenharia Militar da Escola Militar, para receber o soldo que a Escola pagava e por conta do alojamento e comida. Tinha, entre seus colegas, Cândido Rondon, Lauro Müller, Alberto Rangel e Tasso Fragoso.

Foi desligado do Exército sob o pretexto de incapacidade física, mas na verdade o seu desligamento se deu em razão dos seus protestos, pois atirou o sabre aos pés do Ministro Tomás Coelho, declarando-se republicano.

Proclamada a República em 1889, o ator de Peru Versus Bolívia, retorna à Escola Militar da Praia Vermelha, graças ao apoio de seu futuro sogro, o Major Sólon Ribeiro e de seus colegas da Escola, que pediram sua reintegração.

1890 - Casa-se com Ana Emília Ribeiro.

1891 - Tira um mês de licença para tratamento de saúde. Viaja com a esposa para a Fazenda Trindade, de seu pai, localizada em Nossa Senhora do Belém do Descalvado (atual Descalvado), no interior de São Paulo. Morre sua filha Eudóxia, recém-nascida.

1892 - Conclui  o curso na Escola Superior de Guerra e é promovido a tenente, seu último posto na carreira. Cumpre estágio na Estrada de Ferro Central do Brasil — trecho paulista da ferrovia, entre a capital e a cidade de Caçapava, por designação do marechal Floriano Peixoto. É nomeado auxiliar de ensino teórico na Escola Militar do Rio. Nasce seu filho Solon Ribeiro da Cunha.

1893 - Escreve artigo com críticas ao governo do marechal Floriano, cuja publicação foi negada pelo jornal “O Estado de São Paulo”. Acometido de forte pneumonia, interrompe sua colaboração com o jornal. Volta a trabalhar como engenheiro praticante na Estrada de Ferro Central do Brasil. Com a Revolta da Armada, que teve início em 06/09, seu sogro é preso. Sua mulher, Ana, refugia-se, com o filho Solon, na fazenda do sogro, em Descalvado (SP). O escritor é designado para servir na Diretoria de Obras Militares.

1894 - É punido com transferência para a cidade de Campanha (MG), por ter protestado, em cartas á “Gazeta de Notícias”, do Rio, contra a execução sumária dos prisioneiros políticos, pedida pelo senador florianista João Cordeiro, do Ceará. Nasce seu filho Euclides Ribeiro da Cunha Filho, o Quidinho.

1895 – Obtém licença do Exército, por ser considerado incapaz para o serviço militar devido à tuberculose. Vai para a fazenda do pai e se dedica às atividades agrícolas. Cansado, poucos meses após tornar-se lavrador, vai trabalhar como engenheiro-ajudante na Superintendência de Obras Públicas em São Paulo.

1896 – Mesmo desaconselhado pelo sogro, o autor desliga-se do Exército, alegando incompatibilidade com a carreira militar, indo para a reforma como tenente. Formado em Engenharia, inicia suas atividades como Engenheiro.

1897 - passa a colaborar em vários jornais brasileiros, a exemplo do Estado de São Paulo, sendo este, que o enviou a Canudos como correspondente. Acompanha, de perto, toda a movimentação de tropas e faz pesquisas sobre Canudos e Antônio Conselheiro. Em Monte Santo, em companhia do jornalista Alfredo Silva, faz incursão nos arredores da cidade, observa as plantas e minerais da região. Nas cercanias de Canudos, no dia 19/09, escreve sua primeira reportagem da frente de batalha. Antonio Conselheiro morre em 22/09. O autor passeia pela cidade, anotando em sua caderneta de bolso, expressões populares e regionais, mudanças climáticas, desenhos da cidade e das serras da região e copia diários dos combatentes. Transcreve poemas populares e profecias apocalípticas, surgindo dessa viagem, uma das melhores obras de interpretação do Brasil. “Os Sertões”, que desde o seu lançamento, teve sucesso de público e crítica, recebendo comentários entusiasmados de Jose Veríssimo e Araripe Júnior. O presidente Prudente de Morais o nomeia adido do estado-maior do ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de Bittencourt. Torna-se sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

1898- reassume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São Paulo. Publica, em “O Estado”, “O Excerto de um livro inédito”, trechos de “Os sertões”, em que defende a tese de que o sertanejo é um homem forte, cuja energia contrasta com a debilidade dos “mestiços” do litoral. A ponte recém-inaugurada, construída em São José do Rio Pardo (SP), em parte sob a fiscalização do escritor, desaba, levando Euclides àquela cidade para acompanhar o desmonte. A demora nos trabalhos faz com que o escritor mude-se para aquela cidade, onde fica até 1901. Profere palestra no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, sobre a “Climatologia dos sertões da Bahia”, e propõe a construção de açudes para resolver o problema das secas no Nordeste. Grande parte de “Os sertões” é escrita em São José, com a colaboração do prefeito da cidade, Francisco Escobar, que se tornara amigo do escritor.

1990 - finaliza a primeira versão de “Os sertões.

1901 – É nomeado chefe do 5º Distrito de Obras Públicas, com sede em São Carlos do Pinhal (SP), onde conclui “Os sertões”. Nasce seu filho, Manuel Afonso Ribeiro da Cunha. Assina contrato com a editora Laemmert, do Rio, a publicação de 1.200 exemplares de “Os sertões”, assumindo o compromisso de pagar a metade dos custos de edição, 1conto e quinhentos mil réis, quase o dobro de seu salário de engenheiro.

1902 - após um trabalho insano de revisão, “Os sertões (Campanha dos Canudos)” chega às livrarias em dezembro, sendo recebido com aplausos e restrições pela critica.

1903 – A primeira edição do livro se esgota em pouco mais de dois meses. Começa a tomar notas para a “História da revolta”, livro sobre a rebelião da Marinha, que combateu no Rio, como oficial do Exército, de 1893 a 1894. Elege-se para a cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Castro Alves, e como sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Face à possibilidade de participar de expedição ao Purus, suspende a redação do livro. Vende os direitos das segunda tiragem de “Os sertões” para o editor Massow. Demite-se da Superintendência de Obras Públicas.

A repercussão do seu primeiro livro permitiu o ingresso de Euclides como sócio no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e na Academia Brasileira de Letras. Na ABL. Independente dessa obra, o autor de “A Margem da História”, teve papel decisivo na Diplomacia Brasileira, sendo nomeado pelo Barão do Rio Branco, chefe da Comissão Mista de Reconhecimento do Alto Purus delimitando a fronteira entre Brasil e o Peru.

Realizou viagem heróica pelo Rio Purus, na Amazônia, chefiando missão oficial do Ministério das Relações Exteriores. Percorreu cerca de 6.400 quilômetros de navegação, alguns trechos inclusive a pé. De volta, redige, com o comissário peruano, o relatório da expedição, embarcando em seguida para o Rio de janeiro. Enquanto estava na expedição pela Amazônia, a editora Laemmert publica a terceira edição de “Os sertões”.

1904 – Participa, através de artigos publicados em jornais, do debate sobre os conflitos de fronteira. Condena o envio de tropas brasileiras para o Alto Purus e defende uma solução diplomática que permita incorporar o território do Acre. Propõe uma “guerra dos cem anos” contra as secas do Nordeste, que inclua a exploração científica da região, a construção de açudes, poços e estradas de ferro e o desvio das águas do rio São Francisco para as regiões afetadas pela estiagem. Após trabalhar alguns meses na Comissão de Saneamento de Santos, desentende-se com a diretoria e pede demissão. Sem emprego, volta a escrever no jornal “O Estado de São Paulo” e, também, em “O País”, do Rio. Dificuldades financeiras fazem-no transferir, por uma bagatela, os direitos de “Os sertões” para a editora Laemmert. É nomeado, pelo barão do Rio Branco, chefe da Comissão Mista  Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto Purus, na fronteira do Brasil com o Peru. Parte rumo a Manaus (AM) no dia 13/12.

1905 - Realiza viagem heróica pelo Rio Purus, na Amazônia, chefiando missão oficial do Ministério das Relações Exteriores. Percorre cerca de 6.400 quilômetros de navegação, alguns trechos inclusive a pé. A comissão chega à foz do rio Purus em 09/04. De volta, redige, com o comissário peruano, o relatório da expedição. Embarca para o Rio no dia 18/12. Durante sua ausência, a editora Laemmert publica a terceira edição de “Os sertões”.

1906 – Com a saúde debilitada pela malária, ao chegar encontra Ana, sua esposa, grávida do cadete Dilermando de Assis. Mesmo diante da gravidade da situação familiar e emocional vivenciada, trabalha como adido do barão do Rio Branco. Se empenha no preparo da documentação necessária à construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré. A Imprensa Nacional publica “Notas complementares do comissário brasileiro” sobre a história e a geografia do Purus, incluído no “Relatório da comissão mista Brasileiro-Peruana de reconhecimento do Alto Purus”. Recusa indicação para fiscalizar a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Ana dá à luz Mauro, que falece de debilidade congênita uma semana após seu nascimento. Tempos depois, afirmará ter tomado remédios abortivos tentando interromper a gravidez e que fora também impedida pelo marido a amamentar a criança, filha de Dilermando. O “Jornal do Comércio” publica “Peru versus Bolívia”. Começa a escrever “Um paraíso perdido”, livro sobre a Amazônia, que não é terminado face à morte do autor. Os originais se perderam. Toma posse, finalmente, na Academia Brasileira de Letras.

1907 – Pública “Contrastes e confrontos”, pela editora Livraria Chardron, do Porto (Portugal). Nasce Luís Ribeiro da Cunha, registrado como seu filho, mas que irá adotar, na fase adulta, o sobrenome Assis, de seu pai biológico Dilermando. Profere, com grande sucesso, no Centro Acadêmico 11 de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo, a conferência “Castro Alves e seu tempo”.

1908 – Escreve o prefácio do livro “Poemas e canções”, de Vicente de Carvalho. Em “Antes dos versos”, expõe sua concepção da poesia moderna. Publica no “Jornal do Comércio”, a crônica “A última visita”, sobre a inesperada homenagem de um anônimo estudante a Machado de Assis em seu leito de morte. O biografado ocupa, por breve período, com o falecimento de Machado, a presidência da Academia Brasileira de Letras. Passa o cargo para Rui Barbosa. Inscreve-se no concurso para a cadeira de lógica no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II), no Rio.

1909 – Buscando uma estabilidade, inscreve-se no concurso para a cadeira de lógica no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II), no Rio, classificado em segundo lugar, sendo nomeado graças à interferência junto ao presidente da República, Nilo Peçanha, por parte do Barão do Rio Branco e do escritor e deputado Coelho Neto, seus grandes amigos e admiradores. Entrega aos editores, Lello & Irmão, as provas de “À margem da História”.

1909 – no dia 15 de agosto, por volta das 10 horas, foi alvejado na antiga estrada Real de santa Cruz, hoje Avenida Dom Helder Câmara, no bairro da Piedade no Rio de Janeiro, por Dilermando de Assis, cadete do Exército, que vinha mantendo um envolvimento amoroso com a mulher do autor de “contrastes e confrontos”.

O caso em si ficou conhecido como a “Tragédia da Piedade” deixando toda a sociedade brasileira perplexa, em virtude do amplo conceito que detinha Euclides da Cunha, nos meios políticos e sociais.

Levantando a tese de legítima defesa, Dilermando de Assis, foi absolvido, em julgamento que entrou para os Anais do Direito, como um dos mais importantes do século XX.

A morte de Euclides reflete em grande parte a sua vida, tumultuada, mais que deixou em todos um grande legado as gerações que o sucederam.

1916, o segundo-tenente Dilermando de Assis, que havia sido absolvido da morte de Euclides (legítima defesa), mata em um cartório de órfãos no centro do Rio, o aspirante naval Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, que tentou vingar a morte do pai. Dilermando é novamente absolvido, pelo mesmo veredicto.

A vida pessoal de Euclides da Cunha foi marcada por tragédias familiares, iniciando-se com a perda prematura dos seus pais e parentes mais próximos. Sua vida profissional também foi cheia de altos e baixos, de muitas dificuldades. No casamento também não foi diferente, encontrou na sua união com Ana, a grande armadilha da sua vida, diante do envolvimento de sua mulher, com o cadete Dilermando, sendo vítima da tragédia humana pessoal e familiar, pois além da desonra e da humilhação sofrida, tanto ele quanto o seu filho, Euclides da Cunha Filho, foram tragicamente assassinados a tiro pelo amante de sua mulher.

Euclides tinha a saúde fragilizada, mas um espírito forte, equilibrado, um visão futurista, e ainda hoje seus trabalhos exercem profunda influência na Literatura e em diversos setores de atuação do Estado. Foi o precursor do modernismo no Brasil, ao lado de escritores como Augusto dos Anjos (paraibano) e Lima Barreto, sendo a sua obra, discutida e estudada por diversos segmentos ao longo destes anos. Na época, já vislumbrava a transposição das águas do rio São Francisco, visando minimizar os efeitos da seca em certas regiões do Nordeste.

Como funcionário do Ministério das Relações Exteriores, Euclides refletia sobre o destino do Brasil no mundo em geral e na América do Sul em particular, considerando as suas relações de solidariedade e de rivalidade com os países vizinhos.

O escritor estava atento às questões do seu tempo e as observou e as analisou de acordo com as perspectivas que lhe eram oferecidas pela sua época. Os artigos que compuseram os livros “Contrastes e Confrontos” “Peru versus Bolívia, e “ À Margem da História, foram escritos por jornais, continham, no geral, reflexões sobre acontecimentos do tempo presente e analisavam temas amplamente debatidos pela imprensa da época.

Euclides se tornou famoso internacionalmente por sua obra-prima, “Os Sertões”, que retrata a Guerra dos Canudos. Definida como o confronto entre o Exército da República e um movimento popular de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro, que durou de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no interior do estado da Bahia, no Brasil. A guerra terminou com a destruição total de Canudos, a degola de muitos prisioneiros de guerra, e o incêndio de todas as 5.200 casas do arraial, e tudo isso foi retratado em suas obras.

Em seu centenário de morte, o escritor carioca Euclides da Cunha continua como referencia na Literatura, Sociologia, Geografia, História e Diplomacia. Foi escritor, professor, sociólogo, repórter jornalístico e Engenheiro, e embora tenha se tornado notável por sua obra-prima, “Os Sertões”, onde reflete a batalha de canudos, a história sertaneja, trata-se, contudo, de um escritor que não refletiu apenas esse aspecto social ou regional. Publicado em diversos idiomas como alemão, chinês, francês, inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco. As demais obras de Euclides da Cunha revelam muitos aspectos do intelectual que despertou interesse na sociedade brasileira dos últimos 100 anos.

A vida e a obra de Clarice Lispector

sábado, 1 de agosto de 2009

“Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento”

Clarice Lispector uma ucraniana nascida em 10 de dezembro de 1920, que com menos de dois anos de idade mudou-se com sua família para o Brasil, firmando residência inicialmente em Maceió, depois em Recife, e em 1935, seguiu para o Rio de Janeiro, na companhia do seu pai e das irmãs, já que havia ficado órfã de mãe desde 1930. Formada em direito, mas nunca exerceu a profissão de advogada, vivendo basicamente da sua atuação como jornalista e tradutora. Mas desde o ano de 1931, ainda em Recife, que escrevia suas historinhas, todas recusadas pelo Diário de Pernambuco, que àquela época dedicava uma página às composições infantis. Isso se devia ao fato de que, ao contrário das outras crianças, as histórias de Clarice não tinham enredo e fatos — apenas sensações.

Em 1940, consegue um emprego de tradutora no Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP. Como não havia vaga para esse trabalho, Clarice ganha o lugar de redatora e repórter da Agência Nacional. Inicia-se, ai, sua carreira de jornalista. Nesse novo trabalho, convive com Antônio Callado, Francisco de Assis Barbosa, José Condé e, também com Lúcio Cardoso, por quem nutre durante tempos uma paixão não correspondida: o escritor era homossexual.

A primeira obra (romance) de Clarice foi escrita em 1942, com o título Perto do Coração Selvagem, o qual foi traduzido para o Francês em 1954, pela editora Plon.

No ano seguinte Casou-se com Gurgel Valente, seu colega de faculdade, o qual era Diplomata. Dessa união nasceram dois filhos Pedro e Paulo, os quais ela toma como padrinhos Erico Veríssimo e sua mulher Mafalda.

no período de maio a outubro de 1952[i] ela escreve no jornal do comício "Entre Mulheres", sob o pseudônimo de "Tereza Quadros”.

Depois do casamento com Pedro Valente, houve muitas idas e vindas do casal entre o Rio de janeiro, Estados Unidos e a Europa.

1959- Separa-se do marido e, em julho, regressa ao Brasil com seus filhos. Para aumentar seus ganhos, passa a escrever sob o pseudônimo de "Helen Palmer", inicia, em agosto, uma coluna no jornal "Correio da Manhã", intitulada "Correio feminino — Feira de utilidades".

1960- Publica Laços de Família, seu primeiro livro de contos, pela editora Francisco Alves. Começa a assinar a coluna "Só para Mulheres", como "ghost-writer" da atriz Ilka Soares, no "Diário da Noite"

Em 1961, publica o romance A maçã no escuro. Recebe também o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por Laços de família.

1962- Passa a assinar a coluna "Children’s Corner", da seção "Sr. & Cia.", onde publica contos e crônicas. Recebe o prêmio Carmen Dolores Barbosa (oferecido pela senhora paulistana de mesmo nome), por A maçã no escuro, considerado o melhor livro do ano

1966- Na madrugada de 14 de setembro a escritora dorme com um cigarro aceso, provocando um incêndio. Seu quarto ficou totalmente destruído. Com inúmeras queimaduras pelo corpo, passou três dias sob o risco de morte — e dois meses hospitalizada. Quase tem sua mão direita — a mais afetada — amputada pelos médicos. O acidente mudaria em definitivo a vida de Clarice.

1967- As inúmeras e profundas cicatrizes fazem com que a escritora caia em depressão, apesar de todo o apoio recebido de seus amigos. Não foi só um ano de acontecimentos ruins. Começa a publicar em agosto — a convite de Dines — crônicas no "Jornal do Brasil", trabalho que mantém por seis anos. Lança o livro infantil O mistério do coelho pensante, pela José Álvaro Editor. Em dezembro, passa a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro.

1968- Em maio, o livro O mistério do coelho pensante é agraciado com a "Ordem do Calunga", concedido pela Campanha Nacional da Criança. Entrevista personalidades para a revista "Manchete" na seção "Diálogos possíveis com Clarice Lispector". Participa da manifestação contra a ditadura militar, em junho, chamada "Passeata dos 100 mil". Morrem seus amigos e escritores Lúcio Cardoso e Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). É nomeada assistente de administração do Estado. Profere palestras na Universidade Federal de Minas Gerais e na Livraria do Estudante, em Belo Horizonte. Publica A mulher que matou os peixes, outro livro infantil, ilustrado por Carlos Scliar.

1969- Publica seu "hino ao amor": Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, pela Editora Sabiá. O romance ganha o prêmio "Golfinho de Ouro", do Museu da Imagem e do Som. Viaja à Bahia onde entrevista para a "Manchete" o escritor Jorge Amado e os artistas Mário Cravo e Genaro.

1970- Começa a escrever um novo romance, com o título provisório de Atrás do pensamento: monólogo com a vida. Mais adiante, é chamado Objeto gritante. Foi lançado com o título definitivo de Água viva. Conhece Olga Borelli, de que se tornaria grande amiga.

1971- Publica a coletânea de contos Felicidade clandestina, volume que inclui O ovo e a galinha, escrito sob o impacto da morte do bandido Mineirinho, assassinado pela polícia com treze tiros, no Rio de Janeiro. Há, também, um conjunto de escritos em que rememora a infância em Recife. Encarrega o professor Alexandre Severino da tradução, para o inglês, de Atrás do pensamento: monólogo com a vida. Dez de seus contos já publicados constam de "Elenco de cronistas modernos", lançado pela Editora Sabiá.

1972 - Retoma a revisão de Atrás do pensamento, com o qual não estava satisfeita. Faz inúmeras alterações no texto e passa a chamá-la Objeto gritante. Repensando o romance, procura distrair-se. Durante um mês posa para o pintor  Carlos Scliar, em Cabo Frio (RJ)

1973 - Publica o romance Água viva, após três anos de elaboração, pela Editora Artenova, que lançaria também, nesse ano, A imitação da rosa, quinze contos já publicados anteriormente em outras coletâneas. Alberto Dines, em carta à escritora, diz sobre Água viva: "[...] É menos um livro-carta e, muito mais, um livro música. Acho que você escreveu uma sinfonia". Viaja à Europa com a amiga Olga Borelli. Clarice deixa de colaborar com o "Jornal do Brasil", face à demissão de Alberto Dines, no mês de dezembro.

1977 - no dia 9 de dezembro, um antes do seu 57° aniversário, morre Clarice, vitimada por uma súbita obstrução intestinal, de origem desconhecida que, depois veio se souber ter que sido motivada por um carcinoma de ovário irreversível.

1978 - Três livros póstumos são publicados: o romance Um sopro de vida — Pulsações, pela Nova Fronteira, a partir de fragmentos em parte reunidos por Olga Borelli; o de crônicas  Para não esquecer, e o infantil,  Quase de verdade, em volume autônomo, pela Ática. Para não esquecer é composto de crônicas que havia sido publicadas na segunda parte do livro A legião estrangeira, em 1964, que compunham a seção "Fundo de Gaveta" do citado livro. A hora da estrela é agraciada com o prêmio Jabuti de "Melhor Romance". A paixão sendo G. H. é publicada na França, com tradução de Claude Farny.

1979 - É publicado A bela e a fera, pela Nova Fronteira, contendo contos publicados esparsamente em jornais e revistas. Estréia, no teatro Ruth Escobar, em São Paulo, Um sopro de vida, baseado em livro de mesmo nome, com adaptação de Marilena Ansaldi e direção de José Possi Neto.

1981 - "Clarice Lispector — Esboço para um retrato", de Olga Borelli, é lançado pela Nova Fronteira.

1984- Reunindo a quase totalidade de crônicas publicadas no Jornal do Brasil, no período de 1967 a 1973, é lançado "A descoberta do mundo", organização de Paulo Gurgel Valente, filho da autora. A Éditions des Femmes, da França, lança, em sua coleção "La Bibliotèque des voix", fita cassete com trechos de La passion selon G. H., lidos pela atríz Anouk Aimée.

1985- A hora da estrela recebe dois prêmios na 36ª edição do Festival de Berlim: da Confederação Internacional de Cineclubes — Cicae, e da Organização Católica Internacional do Cinema e do Audiovisual — Ocic. O longa-metragem de mesmo nome, dirigido por Suzana Amaral, com roteiro de Alfredo Oros também é premiado: Marcélia Cartaxo recebe o Urso de Prata de "Melhor Atriz".

Suas principais obras foram: Perto do Coração Selvagem (Romance-1943), traduzido para o francês em 1954; a maçã no escuro ( Romance – 1961) traduzido para o inglês; A paixão segundo G.H (Romance-1964); A hora da estrela; a Descoberta do mundo (2008) edição comemorativa, uma das Obras prediletas de Cazuza (cantor e compositor e Poeta); Onde estivestes de noite ( contos-1974); A via Crucis do corpo (contos – 1974); a vida intima de Laura (infantil); Para não esquecer; de Corpo inteiro (entrevista - 1975); A legião estrangeira (contos); aprendendo a viver – crônicas (2004); A bela e a fera (contos); A hora da estrela (Romance); Água viva (Romance); A mulher que matou os peixes (infantil); A cidade sitiada (Romance-1949); Como nasceram as estrelas (1987 –infantil); Um sopro de vida (romance – publicado postumamente em 1978), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres ( Romance-1969); Laços de família (contos- 1960); O lustre (Romance-1961); O mistério do coelho pensante ( infantil – 1967); Felicidade clandestina (contos – 1971); Para não esquecer (crônicas- 1978); quase verdade (infantil – 1978).

Visão pessoal sobre Clarice

Como já observado por todos que tem identificação com Clarice, ao mesmo tempo em que ela ousava desvelar as profundezas de sua alma em seus escritos, costumava evitar declarações íntimas nas entrevistas que concedia, tendo afirmado mais de uma vez que jamais escreveria uma autobiografia. Contudo, nas crônicas que publicou no Jornal do Brasil entre 1967 e 1973, deixava escapar em determinados momentos impressões que permitem compor um auto-retrato bastante acurado, ainda que parcial de sua personalidade. Isto porque Clarice por inteiro só os verdadeiramente íntimos conheceram e, ainda assim, com detalhes ciosamente protegidos por zonas de sombra. A verdade é que a escritora, que reconhecia com espanto ser um mistério para si mesmo, continuará sendo um mistério para seus admiradores, ainda que os textos confessionais até aqui coligidos possibilitem reveladores vislumbres de sua densa personalidade.

Clarice era tão enigmática, que ela mesma dizia “sou tão misteriosa que não me entendo”. Isso ela consegue passar para o leitor em suas entrevistas, e em seus escritos. Mas, além disso, Clarice nos passa a certeza de uma pessoa muito espiritualizada, que escrevia com a alma como se estivesse sempre recebendo uma intuição divina, uma forma de externar os sentimentos aprisionados em seu coração. Ela não se deixa envolver pelo lado material das coisas, é sutil, subjetiva. Em tudo há um toque de mistério, algo meio sublime, tanto que há registros que manteve um amor solitário por longos anos, por um colega sem ser correspondida, mas para ela o que importava era o amor, o sentir, a emoção, mesmo diante das impossibilidades. Ela dizia: “ É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto – como o que eu sinto se transforma lentamente no que eu digo”.

Conhecemos sua obra na época de faculdade na Universidade Federal do Ceará, tínhamos todo um fascínio pela sua forma de escrever, de ver o mundo, o seu jeito de falar da vida, da força interior e do amor. Desde então lemos até as correspondências que trocava com seus familiares e amigos. Dentre eles Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Afonso Romano de Santa’Ana e tantos outros. Por isso, escolhemos o seu nome como primeiro destaque nesta página sobre literatura, pois há uma grande identidade de pensamento entre nós, alem de profunda admiração.

Clarice era assim:

Alegre e sombria; espiritual e humana; próxima e distante; adulta e por vezes criança; solitária e companheira; superficial e profunda; misteriosa no seu jeito de ser e viver; tímida e às vezes desinibida; mãe e amiga; leve como uma brisa e forte como uma ventania.